Quase 150 anos nos separam da grande manifestação de 1857, em Nova York, organizada por operárias de uma indústria têxtil em greve pela diminuição da jornada de trabalho. Este episódio inspirou e continua inspirando mulheres, e também homens, ao redor do planeta a fazerem do dia 8 de março um dia de luta, resistência e de compromisso com a vida.

Na contramão de uma mera exploração comercial, mulheres e homens de diferentes culturas, raças e crenças se interagem, com o objetivo de evidenciar a realidade enfrentada pelas mulheres na luta contra a pobreza, no direito à saúde, moradia, trabalho, educação para os filhos/as e, principalmente, na luta contra a violência. No Brasil apesar das inúmeras campanhas, as estatísticas revelam uma sociedade extremamente violenta contra as mulheres. De acordo com uma pesquisa da Fundação Perseu Abreu (2001), uma em cada cinco mulheres brasileiras já foi agredida por um homem e, pelo menos, 6,8 milhões, já foram espancadas pela menos uma vez. Por ano, no Brasil, 2,1 milhões de mulheres sofrem violência – uma a cada 15 segundos!

Este ano, de maneira especial, queremos evidenciar e, ao mesmo tempo, reverenciar as mulheres haitianas, mulheres que, em sua luta cotidiana pela sobrevivência, mantêm acessa a esperança de reconstrução do seu país.

Com quase nove milhões de habitantes, sendo sua maioria mulheres, o Haiti é hoje o pais mais pobre das Américas e está entre os 25 países mais pobres do mundo. As mulheres que já vivenciavam uma realidade de profunda desigualdade e pobreza, enfrentam, hoje, uma realidade ainda mais degradante. Após o terremoto que devastou o país em janeiro de 2009, Centenas delas vivem em acampamentos muitos dos quais improvisados, em uma realidade de insegurança e algumas vezes de violência.

Ainda assim, essas mesmas mulheres desempenham um papel fundamental no mercado informal daquele país. Nas ruas de Porto Príncipe é impossível não percebê-las. Em cada esquina, em cada espaço vago, lá estão elas vendendo pequenas quantidades de verduras, frutas, roupas usadas, preparando refeições. Dia e noite é possível registrar esta cena.

As mulheres haitianas, em sua maioria chefes de família, representam 84% dos pequenos negócios e 75% do mercado informal. Exploradas muitas vezes com juros elevados nos empréstimos que são obrigadas a realizar, arriscam o pouco que têm, na esperança de fazerem de seu pequeno negocio alternativa de sobrevivência.

Algumas organizações como a Cáritas Haitiana têm percebido a importância dos fundos solidários enquanto ferramenta fundamental no processo emancipatório das pessoas daquele país. O intercâmbio e a troca de experiências com algumas Cáritas da América Latina, especialmente a do México e do Brasil, têm sido uma das estratégias estabelecidas para o fortalecimento dessas iniciativas e, conseqüentemente, uma efetiva contribuição na reconstrução da vida do povo haitiano, de modo especial das mulheres.

Entretanto, se faz urgente e necessário a reconstrução do Haiti e do seu povo. É preciso favorecer a participação decisiva das mulheres no processo de reconstrução; um redobrado cuidado para realidade de violência, especialmente contra a mulher; a inclusão das necessidades das mulheres e jovens nos acordos bilaterais e nas políticas públicas daquele país. Somente assim será possível garantir que o povo haitiano, em especial as mulheres, possa retomar a construção da sua própria história.

por Maria Cristina dos Anjos, diretora executiva nacional da Cáritas Brasileira

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