Líderes de 14 comunidades estão organizando documento para levar à conferência

Há 20 anos, logo após a ECO 92, Jocelino Cavalcanti ousou ao criar na comunidade Pedras Preciosas, em Rocha Miranda, onde morava, o Núcleo Ecológico Pedras Preciosas. A proposta era desenvolver projetos de educação ambiental para os moradores da favela. Hoje, depois de ter lançado a Escolinha Ecológica para as crianças da região, promovido inúmeros eventos de plantio de mudas e realizado seminários anuais para conscientizar os moradores sobre a importância de preservar o meio ambiente, ele se prepara para contar a história deste trabalho em uma exposição na Cúpula dos Povos, da Rio+20. Jocelino é uma das 14 lideranças comunitárias que, desde novembro do ano passado, estão organizando a participação na conferência, em junho.

Eles contarão com uma tenda de 30 metros quadrados no Aterro do Flamengo onde, além da exposição de fotos sobre o Núcleo, serão realizadas oficinas culturais. O público também terá acesso ao documento que o grupo está preparando com o que consideram os pontos críticos, e ainda sem solução, da rotina de quem vive nas favelas cariocas.

— Na Eco 92 os moradores de favelas nem sabiam do que se tratava o evento. Hoje sabemos o que será Rio+20 e, mais, queremos mostrar nossa força lá. A exposição de fotos e as oficinas culturais serão importantes para mostrar trabalhos interessantes que promovemos, mas não podemos deixar de aproveitar o espaço para denunciar os problemas. O documento que estamos redigindo, com os problemas que enfrentamos, estará lá acessível a quem chegar — contou.

Dele constarão as quatro questões que consideram críticas nas favelas e que, para o grupo, precisam de soluções urgentes: saneamento, melhora do atendimento do sistema de saúde, mais oferta de emprego nas regiões do entorno das comunidades e acesso a cursos técnicos mais especializados.

Para Rumba Gabriel, líder do Jacarezinho, a questão do saneamento é chave pois não é mais possível ter favelas da dimensão das que temos no Rio e continuar com despejo de esgoto a céu aberto.

— Isso afeta a cidade toda, pois se por um lado é desumano com os moradores, que têm que conviver com a sujeira diariamente, por outro gera mais casos de doenças, como a dengue, que se espalham por toda a cidade. — disse.

Outra demanda do grupo é ofertas de cursos técnicos especializados para populações de baixa renda. Ele diz que as entidades não consideram ainda que na favela há pessoas qualificadas interessadas em se profissionalizar em áreas mais especializadas.

— Por que só oferecem cursos de garçom, cabeleireiro ou manicure? Há vários outros, mais especializados e em sintonia com as novas necessidades do país, ligados à biotecnologia, meio ambiente, por exemplo, que o favelado não tem acesso — questionou Heloisa de Farias, que representava uma das comunidades do Complexo do Alemão. — O mesmo vale para os cursos de artesanato. Por que só pintura em madeira e coisas do tipo e não moda, ourivesaria e outros tantos mais interessantes? Temos gente qualificada e com talento artístico morando aqui — disse.

Para Jailson de Souza, coordenador do Observatório de Favelas, o movimento dessas lideranças deixa claro que as favelas não podem mais ser pensadas pelo poder público como um problema. Em vez disso, elas poderiam ser pensadas como espaço de solução e onde as soluções para questões que afetam a cidade podem, também, ser criadas.

— Está havendo uma reconfiguração da sociedade civil e as redes sociais contribuem para isso, ajudando a divulgar as ideias de pequenos grupos como este. Por isso que, neste momento, essas lideranças sentem-se fortalecidas para mostrar que a favela pode ajudar a criar soluções e não ser vista apenas como problema.

Fonte: O Globo

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