Foi com o objetivo de promover o intercâmbio das problemáticas causadas pelas indústrias extrativistas, que a Cáritas Francesa (Secours Catholique – Réseau Mondeal Caritas) reuniu na manhã desta segunda-feira, dia 18, representes do Peru, da Colômbia, e de dois países da África Central, Tchad e República do Congo, para socializarem e debaterem as realidades e os impactos de cada região.

A atividade, que ocorreu na Cúpula dos Povos, no Rio de Janeiro (RJ), fez parte da programação das tendas autogestionadas. De acordo com Hilda Carrera, responsável pelo Departamento de Incidência Internacional da Cáritas Francesa, nos últimos anos a entidade vem refletindo junto com parceiros, diversos conflitos ambientais e sociais gerados, principalmente, pelos grandes projetos como mineradoras e petroleiras. “O grande problema do desenvolvimento passa pelas práticas da mineração e extração de petróleo, por exemplo. Nós, enquanto uma grande rede de solidariedade, não podemos deixar que injustiças com as populações mais pobres, que são as mais afetadas, continuem acontecendo.”

A realidade de pobreza e forte contaminação do meio ambiente são características comuns aos dois países da África Central, Tchad e República do Congo, que sofrem com a exploração petroleira. Conforme explicou Gilbert Maoundonodji, coordenador da Associação pela Promoção de Liberdades Fundamentais do Tchad, as petroleiras são responsáveis pela poluição das águas, do ar e da terra.

As comunidades que sobrevivem da pesca, além de se contaminarem pelo consumo de água imprópria para o uso humano, não encontram mais peixes para sua subsistência, pois a maioria das fontes de água está ocupada pelas multinacionais do petróleo. “Inicialmente o que era para serem 300 poços de petróleo, hoje são 1200. Cerca de 100 mil pessoas são afetadas e não contam com o apoio do Estado que apenas está interessado nos lucros com o petróleo e não faz com que os investimentos cheguem até as comunidades.”

Jean Pimé Brice Mackassa, secretário permanente e assistente jurídico da Comissão Diocesana de Justiça e Paz da República do Congo, destacaram que as mesmas multinacionais ocupam diferentes territórios. “Elas estão na África, na Ásia e na América Latina. Por isso é preciso juntar os processos, ter ações conjuntas, pois não podemos permitir que realidades como estas continuem acontecendo.”

Diante do descaso do governo e das violações dos direitos humanos as organizações sociais dos dois países africanos moveram várias denúncias contra as empresas petroleiras nos seus países de origem sendo instaurados vários processos de reparação dos danos causados.

A diretora do Centro Amazônico de Antropologia e Aplicação Prática do Peru, Adda Chuecas Cabrera, falou sobre a realidade dos povos indígenas do país, também fortemente afetados pelas atividades extrativistas. Hidroelétricas, petroleiras, mineração, além da produção monocultora voltada essencialmente para a produção do biodiesel, são os principais responsáveis geradores de conflitos sociais na região. “A presença desses grandes projetos causam inúmeros impactos para os povos indígenas e o principal problema é a água, principal fonte de vida para estes povos, mas que estão amplamente contaminadas.” Estão previstas a construção de 52 hidroelétricas no Peru, boa parte delas financiada pelo Governo Brasileiro.

Segundo Adda, existem 28 milhões de indígenas na América Latina. Destes, 316 povos vive na Amazônia, um território presente em oito países da América do Sul. Somente no Peru, que é mundialmente o quarto país em biodiversidade, existem quatro milhões de indígenas em 52 diferentes etnias. “Até 1997, 11 povos desapareceram física e culturalmente e oito estão ameaçados.”

Segundo Altair Pozzebon, da Cáritas Regional Rio Grande do Sul e participante da atividade, a exploração descontrolada dos recursos naturais pelas empresas multinacionais esta comprometendo a biodiversidade e causando sérios impactos nos modos de vida das populações tradicionais. “Precisamos denunciar esses projetos e debater com o povo um modelo de desenvolvimento sustentável e solidário que gere vida e vida em abundância para todas e todos”.

Adda Chuecas Cabrera (Peru); Jean Pimé Brice Mackassa (Congo); Selma Asprilla (Colômbia); Hilda Carrera (França); Gilbert Maoundonodji (Tchad)

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por Thays Puzzi, assessora de Comunicação da Cáritas Brasileira / Secretariado Nacional         

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