Em entrevista especial para a Cáritas Brasileira, o presidente do Secretariado da América Latina e Caribe de Cáritas (SELACC), monsenhor Fernando Bargalló, falou sobre a participação da entidade nas atividades da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, e na Cúpula dos Povos. Além disso, destacou pontos essenciais para que o real desenvolvimento sustentável aconteça, tendo como base a solidariedade e a pessoa como ponto central em seu aspecto humano e integral. Veja entrevista.

Cáritas Brasil – Qual é a importância da participação da Cáritas enquanto rede na Rio+20 e Cúpula dos Povos?

Monsenhor Fernando – Em primeiro lugar destaco a importância da participação para as pessoas, os agentes Cáritas que são enriquecidos em seu crescimento e compromisso evangélico para continuarem suas atuações como atores sociais de transformação com valores segundo o Evangelho de Jesus Cristo. Creio que para essas pessoas, de várias Cáritas do mundo, é uma riqueza muito grande, porque as coloca em situação de troca de experiências. Além disso, a participação enquanto rede fortalece vínculos. A Cáritas é um organismo da Igreja a serviço dos mais pobres. Lutamos pela justiça, pela solidariedade, pela inclusão de todos e todas para uma vida digna. Essa é uma grande oportunidade de todas as Cáritas se articularem com outras organizações, estreitar vínculos e de se redescobrirem no que já sabem fazer muito bem, porém em um nível mais amplo. Se quisermos tornar nossas ações mais eficientes, principalmente no âmbito da incidência, é necessário criar vínculos com outras organizações para juntos incidirmos mais fortemente, especificamente neste caso, junto aos dirigentes das nações para as melhores decisões para a vida da humanidade.

Cáritas Brasil – A Rio+20 discute uma proposta da chamada “economia verde” para o mundo, porém sabemos que esta não traz ações de mudanças profundas para o desenvolvimento sustentável. Qual é o posicionamento da Cártitas com relação a isso?

Monsenhor Fernando – Há uma importante advertência com relação à proposta. Se a economia verde for entendida pelos mecanismos e princípios neoliberais, definitivamente, não servirá para nada, porque assim se manterá como força de impulso econômico e de desenvolvimento tendo o lucro e a lei de mercado como objetivo principal. É preciso mostrar que outra economia é possível, outro modelo de desenvolvimento humano que tenha a pessoa como centro de maneira integral em todas suas dimensões é possível, mas isso implica em uma mudança maior. É preciso estar atento para a realidade das pessoas, dos povos e de suas culturas.

Cáritas Brasil – E de que forma a Rede Cáritas pode contribuir para um desenvolvimento sustentável que leve em consideração a solidariedade e o ser humano em sua integralidade?

Monsenhor Fernando – Um dos eixos pastorais de ação desenvolvida pela Cáritas na América Latina e Caribe é de desenvolvimento humano integral e solidário. A contribuição da Rede Cáritas consiste fundamentalmente nos trabalhos que são desenvolvidos em âmbito regional, em poder socializar tantas ricas experiências que brotam das bases. Estas comunidades encontram maneiras diferentes de desenvolvimento que tem como base a solidariedade, a confiança e a fraternidade, onde o lucro e a competição não são as regras de desenvolvimento e convivência.

A caridade transformadora junto aos mais pobres desenvolve ações guarda-chuva que une muitos aspectos de desenvolvimento humano integral e solidário. Creio que o desenvolvimento não é meramente uma questão técnica e econômica, acredito que isso consiste em uma mudança mais profunda, uma mudança de vida para a abertura da mente e do coração. É necessário que tenhamos uma economia dentro de uma ética interdependente e humana.

Somos uma grande família de irmãos e irmãs e as fronteiras dos países são realidades estabelecidas pelos homens e não por Deus, não quero com isso julgá-las ou criticá-las, mas quero dizer que na mente e no coração de Deus essa humanidade é uma grande família. Mesmo sendo necessário estabelecer normas e técnicas econômicas, é preciso a conversão dos corações para uma mudança mais profunda que possa abrir nossas mentes para a realidade de tantos que sofrem e padecem e são impossibilitados de viver com dignidade humana.

por Thays Puzzi, assessora de Comunicação da Cáritas Brasileira / Secretariado Nacional / Foto: Alberto Arciniega, coordenador de Comunicação da Cáritas Mexicana

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