Em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, a 18ª edição do Grito dos Excluídos, 19ª na maior cidade da região, na verdade, é preparada desde o dia 26 de maio deste ano, quando aconteceu o 1º Seminário da 5ª Semana Social Brasileira. Nos dias 1º e 02 deste mês, aconteceu o 2º Seminário, nesse mesmo local. E na última sexta-feira (07/09), desde às 7h, fiéis das 22 paróquias, quase-paróquias e comunidades eclesiais da cidade, além de militantes de movimentos sociais e agentes de pastorais e evangélicos da Igreja Anglicana se animaram a acordar cedinho para saborear o que a vida oferece de melhor: a união de todos os seres humanos.

Com momento místico ecumênico e inter-religioso cercado de intensa espiritualidade libertadora, a cerimônia teve início com a lembrança das vítimas dos quase 100 assassinatos, ocorridos apenas em 2012, no município do segundo maior entrocamento rodoviário do Brasil. Presente no evento, o arcebispo metropolitano de Montes Claros e presidente do Regional Leste 2 (Minas Gerais e Espírito Santo) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom José Alberto Moura, de 68 anos, fez menção às Eleições Municipais 2012 e conscientizou as pessoas a votarem em candidatos sérios, comprometidos com trabalhos que estejam a serviço da vida e da dignidade para todos.

Os fiéis reunidos para o Grito dos Excluídos em Montes Claros fizeram ofertas de alimentos, quando todos puderam experimentar, mais uma vez, a partilha do “pão nosso de cada dia” nesta manhã, em frente à Igreja-Mãe da Arquidiocese de Montes Claros. Depois, por volta das 9h, e já observados pela polícia que o Estado não cansa de sucatear, os manifestantes cantaram e dançaram, empunharam faixas de protestos e desceram da Praça da Catedral para a Rua Dom Pedro II, por onde caminharam até a esquina com a Avenida Afonso Pena, centro da cidade. Sempre alegres, mas intimidados pela polícia, as lideranças peregrinaram pela Avenida Afonso Pena, viraram à esquerda na Rua Padre Augusto, ultrapassaram a Avenida Coronel Prates, e desceram pela Rua Reginaldo Ribeiro rumo à Avenida Deputado Esteves Rodrigues (Sanitária).

A polícia intimidava os manifestantes a todo instante com bloqueios fortemente armados nas ruas Irmã Beata, Coronel Spyer e Gabriel Passos. Mas como a vida é levada pelos manifestantes, todos trabalhadores, com alegria autêntica, caminharam por toda a Rua Reginaldo Ribeiro e viraram à esquerda na Avenida Sanitária, por onde passaram opostos ao Desfile Oficial da Independência do Brasil na cidade. Mesmo perseguidos e intimidados pela polícia, o 18º Grito dos Excluídos percorreu toda a avenida, até perto da Prefeitura e da sede de outra polícia (a federal), a qual o Estado também não cansa de sucatear, em protesto contra a terceirização da merenda escolar municipal, contra a falta de repasse pelo Município dos recursos públicos federais para os hospitais da cidade e centros de saúde, contra a falta de segurança pública e o contra o tráfico de drogas que por aqui impera.

Como a polícia ainda intimidava os manifestantes do Grito, ao tentar entrar no Desfile Oficial da Independência, as lideranças se viram coagidas e, em determinado instante, foram forçadas a virar às costas aos policiais, sentar no asfalto da avenida, cantar, falar palavras de ordem. A polícia, depois de um tempo, abriu a barreira para os manifestantes do Grito, que foram até o cruzamento da Deputado Esteves Rodrigues com a Avenida Mestra Fininha. Lá foram surpreendidos com a explosão de uma bomba de fumaça e repressão de policiais a dois jovens. Viu-se, a partir daí, casal de namorados se abraçando e chorando, sem entender o motivo pra tanta violência. Quando a sociedade capitalista entra em crise, como agora, quem dança são sempre os mesmos: os trabalhadores. Porém, como polícia é para proteger ladrão, o Desfile Oficial da Independência em Montes Clarosprosseguiu, mal organizado e aos trancos e barrancos. Ladrões, disfarçados de autoridades públicas ditas eleitas democraticamente, assistiam pacificamente, sentados, lá no palco, ao desfile de outros trabalhadores civis que insistiam em marchar e continuar esta história de 190 anos de vida, protagonizada por dom Pedro I.

“Estado para que e para quem?” – A participação da sociedade brasileira no processo de democratização

O 18º Grito dos Excluídos é uma manifestação popular carregada de simbolismo. É um espaço de animação e profecia, sempre aberto e plural. Todo tipo de ser humano, grupos, entidades, igrejas e movimentos sociais comprometidos com as causas dos excluídos se unem, neste dia histórico, para pôr fim ao mito de que o povo participa da democracia.

Trata-se de uma mobilização de movimentos sociais, com o apoio da Igreja no Brasil, que visa denunciar o modelo político e econômico que, ao mesmo tempo, concentra riqueza e renda e condena milhões de pessoas à exclusão social, denominado sociedade capitalista, a que todo ser humano está submetido desde os anos de 1500. O Grito deseja tornar público, nas ruas do país, o rosto desfigurado dos grupos excluídos, vítimas do desemprego, da miséria e da fome, além de propor caminhos alternativos ao modelo econômico neoliberal, de forma a desenvolver uma política de inclusão social, com a participação ampla de todos os cidadãos.

O Grito se define como um conjunto de manifestações realizadas no Dia da Pátria, 07 de setembro, tentando chamar a atenção das pessoas para as condições da crescente exclusão social na sociedade brasileira. Não é um movimento, nem uma campanha, mas um espaço de participação livre e popular, em que os próprios excluídos, junto com os movimentos e entidades que os defendem, trazem à luz o protesto contra a ganância da sociedade capitalista e, ao mesmo tempo, o anseio por verdadeiras e autênticas transformações sociais. As atividades são as mais variadas com atos públicos, romarias, celebrações especiais, seminários e cursos de reflexão, blocos na rua, caminhadas, teatro, música, dança, feiras de economia solidária, acampamentos. Estendem-se por todo o território nacional. Em 2012, o tema do Grito é “Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda população!”, em sintonia com a 5ª Semana Social Brasileira (SSB).

Texto: Assessoria de comunicação da Arquidiocese de Montes Claros

Imagens: Luzia Alane Rodrigues Dias, Cáritas Arquidiocesana de Montes Claros

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