Pra início de conversa, uma pergunta: quem aqui conhece algum/a jovem que já morreu assassinado? A situação da violência letal envolvendo jovens no Brasil vem criando em nós reações muitas vezes perigosas ao longo do tempo. Entre elas, duas em especial: estamos nos acostumando com tanta morte de jovens e não estamos nos dando conta do quão grave é a situação na medida em que as mortes se tornam mais freqüentes, não só nas grandes cidades, mas cada vez mais nas cidades do interior.

No período de 2000 a 2010, foram assassinadas/os 201.469 jovens, segundo dados do Mapa da Violência do instituto Sangari. Para termos ideia do que isso significa o conflito histórico entre Israel e Palestina, numa região vista por nós como de extrema violência, foram mortas 125.000 pessoas no período de 1947 a 2000. Ou seja, em 53 anos de conflitos intensos, morreram 38% a menos pessoas de todas as faixas etárias do que jovens em apenas 10 anos no Brasil que vive em “tempos de paz”.

A violência também vem se interiorizando cada vez mais e mais rápido. Dados do último Censo do IBGE revelam que a/o brasileira/o ainda vive, na sua maioria, no interior (55,1% da população), o que torna essa questão ainda mais problemática. Em 2010, por exemplo, a diferença entre assassinatos nos interiores em relação às regiões metropolitanas foi de 67%, sendo que já tinha chegado a ser de 242,2% em 1995, por exemplo. Tais dados dão uma boa amostra de que em todo o Brasil vivemos a realidade de extermínio de jovens. E um extermínio com um claro padrão: as vítimas são na ampla maioria pessoas do sexo masculino, negros e empobrecidos.

Por detrás de todos esses números cruéis, há o modelo de desenvolvimento econômico excludente adotado em nosso país e o processo histórico que nos levou até a condição de enorme desigualdade social. Concentração de terra, inchaço das cidades, falta de políticas públicas para a juventude, desestruturação da família, falta de critérios humanísticos nas implantações dos grandes projetos e violência policial são alguns fatores que contribuem para esses dados sangrentos. A própria interiorização da violência é uma amostra de que os pólos de desenvolvimento estão mais variados, mas a lógica nefasta que produz exclusão não mudou.

Longe de fazer uma análise por um viés mais aprofundado, infelizmente, a forma como a perda da vida de jovens é abordada nos noticiários e encarada pelo senso comum estão produzindo em nós um estilo quase nazista de encarar a morte, uma vez que, não raro, encontramos pessoas – incluindo formadores de opinião – sentenciando algo do tipo: “ladrão tem que morrer”, “Esse aí não vai fazer falta”, “Quando a polícia pegar ele tem logo é que matar, porque esse aí não tem mais jeito”.

Portanto, existe no Brasil uma pena de morte velada apresentada como solução para os males do nosso tempo, ajudada pela facilidade com que se pode adquirir armas e munições clandestinamente. As grandes vítimas são pessoas punidas por se exigir delas deveres antes que tenhamos ao menos garantido a elas o mínimo de direitos.

por Eraldo Paulino, Jornalista e articulador da juventude da Cáritas Norte 2

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