“De nuestros miedos

nacen nuestros corajes

y en nuestras dudas

viven nuestras certezas.a

Los sueños anuncian

otra realidad posible”

(Eduardo Galeano)

Somos latinoamericanas/os, de Argentina, Brasil, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Haiti, Honduras, México e Uruguai que participamos do I Encontro Internacional de Jovens da Cáritas realizado em Mário Campos, Minas Gerais. O ideal evangélico de “Partilhar o pão para que todas as juventudes tenham vida” foi o sentimento que nos alimentou durante todas as conversas, a cada olhar a dizer o que a língua às vezes confundia, a cada abraço e sorriso que falavam mais do que palavras são capazes. Nos conhecemos como estrangeiros de diversos lugares e nos despedimos como irmãos, companheiros de um mesmo sonho por um mundo sem fome e miséria, na certeza de que somos Cáritas também, “sem caridade nada seríamos”.

Mas quanta dor e decepção compartilhamos no caminho de nosso encontro ao perceber que jovens filhos de Guadalupe, símbolos da novidade, tombam em números de guerras, muitas vezes pelas mãos de outros jovens, ambos vítimas de Estados negligentes com o bem viver. Como foi difícil olhar adiante quando nos demos conta de que a história manchada de sangue de nossa gente mestiça teve início na colonização patriarcal e excludente, e até hoje vivenciamos a conseqüência de uma desigualdade social que maltrata a vida. Compartilhamos a indignação pela multidão de jovens com baixa escolaridade, com horizonte privado de grandes sonhos desde cedo. A maioria da população carcerária de nossas terras é composta dessa gente, não por acaso.

E a exemplo dos discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35), reconhecemos novamente a luz que nos guia através da partilha de tantos projetos desenvolvidos por muitas/os de nós jovens. Somos apaixonadas/os por Jesus Cristo Libertador, e aprendemos com Ele a radicalidade do amor, porém, sentimos que nossas vozes de mudança não parecem ter mais importância do que nossas forças joviais, nosso poder de compra, nossos corpos, e seja nas páginas policiais, seja em grandes eventos religiosos sentimos que muitas vezes não passamos de números.

Somos parte de uma sociedade e de uma igreja que abre os braços pra nos acolher, mas em seguida teme nos soltar totalmente dos seus braços como deveria ser. A mudança precisa ter voz, vez e lugar, e precisamos aprender juntos como atirar as nossas redes a águas mais profundas. Não queremos desprezar a experiência dos adultos, mas sermos ouvidos quando sentimos que temos algo a falar é fundamental para que nos percebamos valorizados. Se é pra estar no mesmo barco, que possamos também ajudar a decidir que rumos tomaremos. Queremos ser voluntários, mas também estarmos em espaços de decisão e gestão.

E como foi reconfortante perceber que nossos ministérios têm muito em comum. A exemplo das grandes ações da Cáritas na América Latina, nos parece urgente criar um grupo de trabalho de juventudes na Cáritas latino-americana para dar continuidade a esse caminho. E que isso incentive a criação de organizações juvenis nas instâncias paroquiais, diocesanas, territoriais, nacionais e internacionais de forma que se inter-relacionem em rede.

Sentimos que a riqueza de uma troca de saberes aos moldes do que vivemos aqui precisa ser compartilhada em todas essas instâncias de forma permanente e consequente, com realizações de encontros diocesanos, regionais, nacionais que culminem em outros espaços latino-americanos, podendo chegar, quem sabe, a nível intercontinental. Para tanto, queremos nos preparar melhor para acolher a juventude que chega e capacitar aquelas/es que vão ao encontro dela. Precisamos entender que é impossível um trabalho com jovens sem respeitar suas etapas de formação, e sem garantir que o caminho para o amadurecimento na fé seja continuado.

Enquanto formos pessoas conscientes de nossa tarefa estaremos dispostos a juntar folhas secas do chão, a exemplo de Madre Tereza de Calcutá, e toda vez que o seguimento da pessoa de Jesus Cristo nos ajudar a perceber que melhor sorte teremos quando sararmos logo a árvore desde a raiz honraremos o martírio de tanta gente bem aventurada, sinais de esperança radical e grandes exemplos da força nefasta dos poderosos. Como também dizia Dom Helder Câmara, precisa ser estranho achar natural rezar “O senhor é meu pastor e nada nos faltará”, quando muito do básico nos falta.

Muitos de nós partem após o encontro para a Jornada Mundial da Juventude e depois para os seus lugares com a certeza do grande desafio posto. Porém, em momentos de fraqueza sempre podemos lembrar de frases como a de um certo monsenhor Romero: “Ainda quando nos chamem de loucos, ainda quando nos chamem de subversivos, comunistas e todos os adjetivos que se dirigem a nós, sabemos que não fazemos nada mais do que anunciar o testemunho subversivo das bem-aventuranças, que proclamam bem-aventurados os pobres, os sedentos de justiça, os que sofrem.”

Jovens latinoamericanos do I Encontro Iternacional de Jovens da Cáritas

Mário Campos, Minas Gerais, Brasil, 16 de julho de 2013.

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